Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

cicatriz

Fim! mais um pedaço
de fim de mim,
noites cada vez mais
distantes de mim,
agora o perder está claro.
O encontro há tanto ensaiado....perdeu-se,
no violeta enviesado
- e eu, cada vez mais
longe de mim, cada vez mais
somente lembrança,
breve sonho sonhado.
Nuvem, sopro, tropeço,
soluço - o que fomos?
Se permanência não somos,
o que nesta vida, nos amarra?
De ti,
só restou a nostalgia,
e no meu corpo deitou, tola e esguia,
a rubra curva desta cimitarra!

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

tempo

Rapidamente,
tudo se esquece.
Tudo fenece, lilases
aguados,
acordos rasgados,
tudo adoece. Tudo renasce,
tenro de anil,
caligrafia redonda,
o porvir!

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

aguaceiro

Chove dentro, chove fora,
será que amor embolora?
pingos vestidos de índigo,
escorregões furta-cor,
será que dilui o amor?
encharca grama, respinga abraço,
este gostar úmido,
o que é que eu faço?
chove por cima, chove por baixo,
dentro dos teus olhos, como me encaixo?
uma lembrança numa poça d´água
chuva, chuva,
cristalina mágoa.

Sexta-feira, Janeiro 15, 2010

ilustres desconhecidos

Poucos sabem que a gente existe -
que bom! Celebremos este anonimato
imperfeito, do nosso jeito,
fazendo troça da nossa sombra,
contando azares com a boca torta.
Olhemos pro chão, deve haver uma moeda -
em algum lugar do pedregulho,
eco de pisadas leves,
ninguém sabe que a gente existe. Iupi!
Bem no centro da cidade engolimos nossas
tristezas. Quantos amanheceres nos cabelos!
Bem no meio da zona de assalto, incrustrado
na minha pupila
o teu sorriso de madrepérola me fala da beleza da vida.
Eu tenho o suor de quem trabalha, tenho as maçãs do rosto
forjadas por vento, café e tabaco,
o verde dos meus olhos é da cor de água parada,
nostalgia de esquina, quantos têm isso?
E de que importa meu nome estampado na revistinha tola?
e porque sonhar com câmeras e panos suaves?
Ninguém sabe que a gente existe,
e hoje dá vontade de cantar.
Viva!

Segunda-feira, Janeiro 11, 2010

Goela abaixo

Eu empurro o amor goela abaixo.
Ele desce ruidoso, em protesto,
mas em segundos se consola.
Acomoda-se como uma pétala, mansa,
para além do drama cardíaco.
Fica tecendo seus dilemas antigos,
transforma-os todos em lendas,
de vez em quando até sorri.
Conformado, adoçado aos pouquinhos,
quase fica sem som, quase não perturba mais.
Mas este quase....ah, este quase....

Sábado, Janeiro 09, 2010

amormorto

ela sempre volta pra mim.
Visita-me mais uma vez. Desta vez, já não abro
a porta, a espero no sofá.
Ela nem mais limpa os pés antes de entrar.
Já chega aguada de chuva,
sorrindo de canto de boca,
estalando os dedos das mãos.
Doi menos. Doi mais rápido. Mais forte.
Tem até café na mesa pra ela.
Escuto sua conversa banal, conversa
mole pra acalmar criança antes de injeção.
A piada já não tem graça.
Não caio mais nessa. Abro os braços,
solto os dedos, fico mole e mansa,
os pulsos voltados para nuvens, os pés encolhidos
de tanto conhecimento.
Ela se apressa: com minúcia,
vai direto para a aorta, abrindo-a como um rio.
O escarlate me queima até as lágrimas.
Sua poesia moi todas as minhas juntas.
o colarzinho da minha esperança,
arrebentado no chão.
Ela pega uma pedrinha e vai embora,
limpando a sujeira das unhas no seu vestido roxo,
deixando-me oca, infertil,
segurando pelos cabelos finos
tudo aquilo que um dia foi afeto.

Sexta-feira, Janeiro 08, 2010

agoras

Eu tenho uma penca de agoras,
mãos escorrendo de agoras,
juvenis em sua algazarra! matreiros
em segredos, mas ouça -
basta uma hora torta, para
que todos estes agoras
de furta-cor passem a ser
outonos,
um segundo e já são passado,
um minuto e já são lamento.
É sempre assim: um pingo de descuido,
e quando você se despede,
eu fico na soleira da minha esperança
embalando todos os agoras
que criei pra nós.

saudades da UNICAMP 2


saudades da UNICAMP